sábado, 13 de março de 2010

Rui Moreira: Um desenlace fatal

NA semana passada, abordei as questões estruturais que têm comprometido a época futebolística do FC Porto. Não me alonguei, porque faltava o jogo com o Arsenal que, afinal, só confirmou as minhas sombrias expectativas. Agora, já nada de importante se pode esperar desta triste época.

O que falhou, então? Tem sido dito, e repetido, que as saídas de Lucho e Lisandro marcaram a época, e não se pode iludir que essas ausências, a par da Hulk, criaram um problema complicado a Jesualdo. Ainda assim, e reconhecendo que o Benfica se reforçou, isso não explica que o FC Porto esteja já arredado de chegar, sequer, ao 2.º lugar que sendo o primeiro dos últimos, ainda assim abre as portas da Liga dos Campeões. Pior, não explica a débacle nos jogos mais importantes da época e que chegue a esta altura com uma equipa arruinada.

Será fácil, agora, cair na tentação de condenar Jesualdo por tudo o que sucedeu, esquecendo o seu palmarés no clube. Creio que Jesualdo conseguiu adiar com mérito e esconder com carácter a falência de um modelo de gestão desportiva que há muito se pressentia, e sobre o qual algumas vezes escrevi. Aliás, para aquilatar da dimensão do problema, basta comparar a qualidade dos plantéis portista e benfiquista, que têm um orçamento idêntico.

Durante os últimos anos, o FC Porto vendeu os seus melhores activos, e fez bons negócios nessas vendas. O problema é que por troca de cada um desses atletas, contratou, em média, três ou quatro reforços de valor variável e discutível, e por critérios que Jesualdo só por lealdade terá apadrinhado. Ou seja, a renovação da equipa foi fragilizando a sua estrutura sem diminuir o seu custo. É certo que Jesualdo desperdiçou alguns talentos, como é o caso de Bolatti, mas em dezenas de atletas que lhe passaram pela mão, seria injusto criticar o treinador por alguns erros de avaliação, quando se percebe que Benítez e Prediger por exemplo, e para não falar de alguns que ainda estão no plantel, foram investimentos em que a análise custo-benefício foi claramente negativa. Por outro lado, a saída de alguns dos melhores abriu uma outra ferida: desmotivou aqueles que sonhavam com outros voos e que tiveram de ficar, como é o caso conhecido de Bruno Alves e, suspeito, de Meireles.

Foi com a equipa desmotivada, acabrunhada e insegura que Jesualdo partiu para Londres. Depois de Alvalade e do Olhanense, apercebera-se que não tinha, em Tomás Costa, uma alternativa a Fernando. Abdicou dos automatismos que são um dos seus dogmas, e apresentou uma equipa com um jogador em que nunca apostara, e numa posição que este não conhece, e voltou a insistir em Hulk, que há meses não joga regularmente. Com as linhas distantes, o meio campo vazio e uma defesa desarticulada e sem rotinas, apresentou aos ingleses uma apetecível auto-estrada. O resultado era inevitável e só Helton evitou que ele tivesse outras proporções.

Erros individuais ou colectivos?

JESUALDO tentou explicar a derrota através de erros individuais. Com todo o respeito, creio que essa explicação não coincide com o que sucedeu, ainda que os dois primeiros golos tenham tido origem em erros infantis. Se a equipa foi goleada apesar de Helton ter sido o seu melhor jogador, é porque também houve um erro colectivo e um erro táctico, como se viu na primeira parte em que o recuo de Nuno André Coelho para terceiro central, sabe-se lá se por estratégia ou vocação individual, deixou Meireles e Rúben à deriva, num meio campo dominado por cinco ingleses. O FC Porto perdeu porque jogou abaixo das suas capacidades e, convenhamos, porque o seu adversário era muito, muitíssimo mais forte.

Uma armadilha fatal?

EM finais da época passada, a renovação de Jesualdo no FC Porto transformara-se num tabu. Dizia-se, e creio que com verdade, que Jesus estava apalavrado para vir para o Dragão, mas o jogo em Manchester trocou as voltas à SAD. Nessa altura, alguns dos principais jogadores saíram em defesa do seu treinador, apelando à sua manutenção. Um facto inédito nos anais do clube, desde que Pinto da Costa chegou à liderança. Vieira não perdeu tempo e raptou o treinador que muitos já imaginavam no Dragão e o FC Porto renovou, por dois anos, com Jesualdo. Mas é lícito perguntar se o treinador não terá ficado refém desse apoio do núcleo duro, que mesmo que tenha sido espontâneo, lhe retirou autoridade.
A solução para o futuro

DEPOIS das mais-valias nas vendas, acrescidas das que resultariam da venda do passe de Bruno Alves, esta poderia ter sido uma época sabática, dedicada à construção de uma nova equipa, incluindo jogadores da formação, aceitando-se que esse investimento não desse frutos imediatos. Em vez disso, apostou-se num modelo híbrido. Não houve resultados e ninguém acredita que esta equipa esteja a crescer. Por isso, foi uma época duplamente perdida. Para o futuro, a SAD deve optar por um investimento à Benfica, com os riscos que comporta, ou por maximizar a formação e construir uma nova equipa. É essa escolha estratégica que deve preceder e determinar o perfil do treinador.

Uma morte anunciada

PARA isso, Pinto da Costa deve ordenar a autópsia a este modelo de gestão. Verificará, então, que não se tratou de um caso de morte súbita. A doença vem de trás, e o desfecho só foi adiado pela competência de Jesualdo na aplicação de cuidados paliativos e pela falta de concorrência interna. Perceberá também que quem a tentou ocultar, dissimulando os seus sintomas, tem mais culpas no cartório do que quem ousou apontar o dedo a alguns dos seus sintomas mais visíveis. Se, pelo contrário, Jesualdo e a equipa servirem de bode expiatório para apaziguar a ira dos adeptos, e tudo ficar na mesma, temo que esta crise conjuntural se possa transformar num insolúvel problema estrutural.

Rui Moreira n' A Bola.

quarta-feira, 10 de março de 2010

Análise: God of War III - O grande exclusivo PlayStation 3

Com os estúdios Santa Monica e com a série God of War, os jogadores sabem de antemão duas coisas, que algo épico e fenomenal está a caminho. Todos nós sabemos como God of War nos surpreende e cativa, e mesmo mantendo a fórmula igual a si mesma, como uma constante, tal não parece preocupar quando as promessas são tons ainda mais épicos e os contornos ainda mais brutais. Depois de espalhar o terror na anterior geração, Kratos está agora pronto para desencadear a conclusão desta trilogia e a sua vingança contra os deuses do Olimpo.

God of War é uma das séries de maior renome na casa PlayStation e representa potencialmente o maior e mais esperado regresso que esta sua nova geração propôs até à data. Maioritariamente envolta em novos IP’s, é com God of War III que a Sony oferece o regresso de uma das figuras mais icónicas. A expectativa é apenas equiparável à responsabilidade da equipa que prometeu um título tão intenso e agressivo quanto o espírito da série. O patrocínio das ferramentas de nova geração é uma das grandes novidades ao serviço de todos os fãs, que já não conseguem conter toda a sua vontade de vingança. Peito cheio de motivação, com sangue e ódio nos olhos, eis chegada a hora de dar início a uma jornada memorável.

'God of War III' Screenshot 1

Mister K diz: I pity the fool!

God of War III vem dar continuação directa à história dos anteriores e tem início imediatamente após o final do segundo capítulo. Farto da tirania dos deuses do Olimpo que o tratam como uma marioneta, Kratos recruta os titãs para o confronto final que tem início com a escalada desse mesmo monte. O espartano não tem quaisquer intenções de parar, e na busca de vingança contra o pai dá início a uma corrente de eventos épicos. O uso da mitologia Grega como base para todo o enredo e ambiente da série sempre foi um dos seus factores mais brilhantes, moldado com bastante engenho. Neste terceiro capítulo, os fãs podem contar com este talento a um grande nível que nada fará para os desiludir. As personagens que surgem durante o decorrer da aventura e os locais pelos quais passámos, são de enorme requinte para os que se apaixonaram pela característica que tanto ajudou God of War a conquistar uma personalidade distinta para si. Claro que nada vamos contar sobre o embate final que aqui decorre, pois não queremos estragar a experiência aos que desesperam por a conhecer.

'God of War III' Screenshot 2

Mais momentos marcantes estão à nossa espera.

O jogo a começa imediatamente após o segundo título, o pano está criado e é uma escalada/ataque directa sem quaisquer dissimulações. A hora dos mistérios e das artimanhas já passou, agora é guerra. Como tal, o início do jogo não poderia ser de outra forma, frenético e intenso, mas por muito que se preparem para o que aí vem, nada vos preparou para isto.

O início de God of War III é simplesmente um magnífico momento, e posso mesmo dizer que experimentei um dos melhores quarenta minutos iniciais que vi alguma vez num jogo. O ritmo é tão intenso quanto a motivação de Kratos, o jogador sente mesmo que algo de épico está a decorrer, e que algo ainda mais épico se prepara para acontecer. O desenrolar nada faz para demover as expectativas de quem joga e cedo se percebe que God of War III é um daqueles casos muito raros no qual não existem momentos menos bons. Passada a fúria dos momentos iniciais, God of War assume-se como aquilo que só podia ser, uma experiência que todos conhecemos mas mais grandiosa e mais desafiante.

Sendo o mais recente numa série tão acarinhada e com uma base de fãs tão grande, não é de estranhar que pouco tenha sido feito para afastar o jogo dos suportes que lhe deram fundação. Isto quer dizer que temos de volta o conhecido jogo de acção e aventura que no entanto não se faz rogado em colocar a sua familiaridade a seu favor. Se para uns a quase obrigatoriedade de usar o factor familiaridade seria uma comodidade, em God of War III percebe-se que é um desafio, pois obrigou a que mais fosse feito noutros pontos. A escala inicial apenas serve como um aperitivo para aguçar o apetite do jogador, e tal como nos anteriores, os grandes poderes de Kratos são-lhe retirados e o jogador começa a sua jornada visitando locais familiares para um último ajuste de contas.

Como referido, é no sistema de combate que God of War III mais familiar permanece, mas no entanto, algumas novidades, refinamentos e minuciosos detalhes conseguem manter tudo atractivo e tão bom quanto sempre foi. Kratos vai adquirindo novas armas que lhe permitem combater as criaturas que lhe fazem oposição. Tal como nos anteriores, o jogador pode alternar as combinações entre golpes normais e fortes, e consoante vamos ganhando novas armas, mais combinações podemos fazer pois alguns inimigos são mais facilmente derrotados com determinada arma.

Todas as armas principais e secundárias conquistadas por Kratos são feitas em sequências verdadeiramente épicas que certamente vão marcar quem as joga. As lutas contra os deuses são de tal forma brutais que é praticamente impossível não ficar espantado com o gore que o jogo consegue exibir. Após obtidas as armas, ganhamos acesso a novas áreas que nos dão mais um pequeno vislumbrar de mais uma pequena peça de uma enorme tapeçaria que descobrimos aos poucos.

'God of War III' Screenshot 3

Não tenham pena, é assim que vocês vão ficar também.

Torna-se quase impossível não descrever os locais por onde passamos, pois toda a sua construção é altamente importante para explicar como a aventura desafia o jogador e como o mantém constantemente ansioso por continuar a jogar e a conhecer novos locais, estando deliciado com o local no qual se encontra. Especialmente quando pelo meio é forçado a enfrentar um dos inimigos de maior porte e outra das famosas características surge, os Quick Time Events. Quando necessário, o jogador tem a possibilidade de pressionar o botão correcto na altura devida para aplicar devastadores ataques que nos deixam estarrecidos a olhar para o ecrã com o pensamento de como algo tão visceral consegue ser tão espantoso. Na serventia das formas cinematográficas, a presença destes indicadores é mais subtil, e agora temos momentos de escala admirável devido ao motor de jogo que pelo meio alterna para perspectivas de belo efeito sem a momento algum retirar o controlo de Kratos ao jogador.

Falando no motor de jogo, se estavam preocupados com o desempenho registado na demonstração jogável disponível na PlayStation Store, podem colocar as vossas preocupações de lado. God of War III decorre de forma altamente suave e sem quaisquer problemas relacionados com a jogabilidade. Tudo é tão suave e fluído quanto os fãs desejam mas não pensem que nas cerca de 10 horas necessárias para terminar o jogo (dificuldade Normal) vão passar o tempo todo em combate. Em God of War III os puzzles estão de volta e alguns são como o monte que escalamos, gigantescos. Alguns são progressivos e de resolução a longo prazo, e até relacionados com as armas, mas a maioria é de efeito imediato como habitual. Este segundo elemento característico da série, surge de uma forma que consegue espantar pois é uma das formas mais surpreendentes de marcar o ritmo num jogo do género.

'God of War III' Screenshot 4

A perspectiva do épico ou o épico da perspectiva?

God of War III não é um jogo muito longo, como referido são precisas 10 horas na primeira vez que se joga com praticamente todos os itens coleccionados e quase todas as melhorias de personagem obtidas, mas a todo o momento sentimos conforto no jogar. O ritmo é fluído e constante (sem quaisquer ecrãs de carregamento ao longo da aventura), não existem áreas para “encher” e os puzzles oferecem um alto equilíbrio no peso entre a acção e aventura. Mesmo que nalguns seja preciso mais do que uma tentativa, o sistema de checkpoints é altamente competente de forma a que nem sequer se lembrem da palavra frustração. Isto é especialmente agradável quando estamos a ter dificuldade num qualquer boss mais teimoso. O trabalho aqui apresentado tem esse grande mérito de desafiar o jogador estando constantemente a incentivar com requintes de competência sem a momento algum se preocupar que a duração podia ser maior.

Para os que pretendem obter mais do jogo, para além do convite irrecusável a repetir a dose, God of War III emula os exemplos de outros no género entretanto lançados. Para além da existência de Troféus que vão mesmo apelar aos jogadores mais dedicados e adeptos de um bom desafio, o jogo também oferece tarefas adicionais ao jogador, e ainda a arena de combate. São uma espécie de salas de desafio nas quais somos convidados a por em prática a nossa destreza com vários parâmetros a respeitar. Desde restrições nas armas ou no tempo, ou até no tipo de inimigo, são desafios adicionais que servem para prolongar um pouco mais a jogabilidade mas não são algo que se possa considerar essencial.

Tecnicamente já todos esperavam nada menos do que um verdadeiro titã, e mesmo conseguindo tal com alguma mácula, God of War III senta-se confortavelmente ao lado do que de melhor se viu até à data na PlayStation 3 e nesta actual geração. Com alguma frequência os jogadores ficam na presença de texturas de baixa resolução que consoante a perspectiva e o local tem maior ou menor impacto na qualidade. No entanto, não deixamos de sentir que é uma pequeníssima contra-partida face aos verdadeiros talentos do jogo, a sensação de escala e o seu tom épico que a todo o momento se fazem sentir com extrema imponência. Os fãs já estão habituados a tal, o jogo de escala que a série sempre usou, mas aqui em God of War III é conseguida a verdadeira proeza de nos conseguir surpreender mesmo já sabendo com o que contar.

O uso das capacidades da consola é aplicado de forma exemplar e admirável desde o modelo de Kratos, que revela grande detalhe nas sequências pré-renderizadas com o motor de jogo e nos combates durante os quais o seu corpo fica coberto de sangue. Os titãs que escalam o monte Olimpo, os deuses contra quem lutamos e os cenários majestosos e arrebatadores frequentemente nos trouxeram a famosa e polémica expressão à cabeça: um quadro que ganha vida. Nos melhores momentos consegue mesmo ser assim tão bom que até a própria expressão de linhas sensacionalistas parece fazer de nós idiotas por duvidarmos. De forma curta, este é um jogo realmente admirável e estonteante no que diz respeito ao aspecto visual e direcção artística, especialmente graças às espantosas animações e ângulos de câmara que atestam a frenética imponência dos eventos.

'God of War III' Screenshot 5

O sangue jorra aos litros.

Valores cinematográficos que são acompanhados pela componente sonora que é toda ela luxuosa. Para os interessados, God of War III apresenta-se completamente em Português (texto e falas) e sendo um esforço admirável e a aplaudir, a qualidade não consegue ser suficiente para nos fazer viver a experiência sem o trabalho original. De enorme qualidade e sem qualquer falha a apontar, o elenco original dá vida às personagens com toda a pompa que conhecemos e admirámos, algo com que o elenco competente Português nunca conseguiria competir.

Ao contrário dos anteriores e apreciados esforços, aqui não estamos perante novos IP’s onde conhecemos pela primeira vez personagens novas e que para muitos “nasceram” a falar Português. Aqui estamos perante Kratos, perante os titãs e perante os deuses do Olimpo que já nos falaram anteriormente e toda a sua qualidade é obviamente requisitada. A acompanhar temos toda uma banda sonora dentro dos padrões da série mas que se faz sentir com tanto poder que frequentemente me lembrou referências cinematográficas como “O Gladiador”. Este é um dos graciosos casos em que todas as componentes trabalham ao mesmo nível para que tudo caminhe na mesma direcção e em constante apoio.

'God of War III' Screenshot 6

Puzzles são simples e directos, mas bem implementados.

Sejam novatos ou veteranos no género, God of War III é um jogo que tem argumentos para cativar qualquer um. Os fãs estão perante um apelo surdo pois já sabem que esta é uma experiência obrigatória e se dúvidas permaneciam quanto ao fantástico início de ano que esta indústria está a viver, este é mais um exemplo a reforçar o actual bom momento. Todos os grandiosos momentos espalhados ao longo da aventura nos confirmam que estamos perante um candidato a melhor jogo do ano e a melhor jogo na consola. Se receios haviam de persistir sem grandes novidades, tudo se dissipa e até somos forçados a agradecer a oportunidade de estar na presença da fórmula alargada a esta escala. Tudo em God of War III, desde a jogabilidade ao visual, é fruto da experiência amealhada com os anteriores e apresenta versões aperfeiçoadas dessas funcionalidades sendo um trabalho obviamente dedicado aos fervorosos adeptos.

God of War III pode ser uma jornada com contornos familiares mas é tão épica e brutal quanto se poderia esperar, e ainda um pouco mais. É um fantástico jogo que diverte a cada minuto que passa, oferecendo um bom desafio e tudo o que os fãs alguma vez desejaram. Os tons já lhe são conhecidos e mais uma vez os estúdios da Santa Monica apresentam uma referência aconselhável a qualquer um que goste de videojogos. Raramente a expressão horas que passam como minutos pareceu tão adequada.

10/10 - Obrigatório para quem tem e para quem não tem uma PlayStation 3!

Fonte: eurogamer.pt

terça-feira, 9 de março de 2010

MST: O futebol não é assim tão complicado

JÁ várias vezes disse que tenho muito respeito profissional por Jesualdo Ferreira. Acho que ele teve até agora vários méritos no FC Porto — para além do mérito evidente de três campeonatos e três presenças nas eliminatórias da Liga dos Campeões, em três anos de trabalho. Primeiro, repôs a normalidade táctica no futebol da equipa, depois das experiências delirantes do delirante Adriaanse; depois, soube fazer crescer jogadores hoje decisivos, como Bruno Alves, Varela ou o saudoso Lisandro; e, enfim, resistiu, ano após ano, ao desfalque sistemático dos melhores jogadores da equipa, por força da apetência negocial da administração da SAD e em obediência à sua regra de oiro: «vendemos três bons e compramos dez maus».

Mas também várias vezes disse que há coisas em Jesualdo que se tornam difíceis de entender e aceitar, a começar pela sua teimosia e previsibilidade: ele não dança conforme a música, mas conforme o seu plano de dança — e não muda, mesmo que a orquestra esteja a tocar uma valsa e ele insista em dançar um tango. A coisa começa pela escolha dos parceiros de dança: Jesualdo não gosta de mudar de par, ainda que o parceiro escolhido não saiba pôr um pé à frente do outro. No sábado, por exemplo, contra o Olhanense, Jesualdo assistiu pela centésima vez à absoluta inutilidade do Mariano González, mas manteve-o de princípio a fim, atrapalhando tudo e todos. E, do outro lado, brilhava o Ukra, sob contrato com o FC Porto e que ele não quis recuperar em Janeiro. Como a seguir, no Vitória de Setúbal-Braga, brilharam o Hélder Barbosa e o Alan, ou como quinta-feira brilhou o Vierinha pela selecção Sub-23. E a estes poderíamos ainda acrescentar o Candeias, o Rabiola, o Pitbull — tudo extremos dispensados por Jesualdo e que são todos, sem excepção, infinitamente melhores do que o triste González. Outro exemplo: precisou de ver o Maicon oferecer dois golos no primeiro quarto de hora de jogo para, quem sabe, começar talvez a pensar que a alternativa aos centrais titulares se chama Nuno André Coelho e ficou sentado no banco. E o mesmo se diga do miúdo Sérgio Oliveira, culpado de ter deixado todos com água na boca nas raríssimas oportunidades que Jesualdo lhe deu, e obrigado a ficar no banco asssistindo à miserável prestação de um trio de meio campo formado pelos confrangedores Valeri, Belluschi e Guarín. Em quatro anos de FC Porto, Jesualdo Ferreira não aproveitou um só jovem vindo da «cantera» — apenas algumas vezes lhes criou ilusões e lhes deu falsas oportunidades, antes de rapidamente os despachar para a concorrência. Sobretudo, se acumularam o azar de serem portugueses e não argentinos.

A mim, parece-me que o futebol não é assim tão complicado. Pouco ou nada percebo de tácticas e estratégias, mas, caramba, acho que não é nenhum bico-de-obra perceber quando é que um jogador é bom ou quando não presta. Basta ver como domina a bola, como a transporta, como decifra o jogo e resolve cada situação, como remata, como cabeceia, como se desmarca, como passa. Não é preciso ser nenhuma luminária para perceber que um Guarín não faz a mais pálida ideia do que anda a fazer em campo; que o Mariano tem uma permanente expressão de tristeza que é o espelho do futebol que ele próprio sabe que está ao seu alcance; que o Belluschi tem pose de pavão mas a eficácia em voo de um avestruz. Olha-se para o plantel do FC Porto e a mim parece-me evidente o que ali está. Estão oito bons jogadores: o quarteto defensivo (Fucile, Álvaro Pereira, Bruno e Rolando), o trio atacante (Hulk, Varela e Falcao), e apenas um centro-campista, recentemente acrescentado (Ruben Micael). Depois, há três jogadores que umas vezes jogam bem, outras mal: Fernando, Meireles e Rodriguéz. Um trio de guarda-redes banal, as tais duas esperanças por confirmar (Nuno André e Sérgio Oliveira) e, enfim, aquela funesta leva de latino-americanos que Jesualdo adora e que são uma fonte de despesas e frustrações sem fim: Mariano, Guarín, Tomás Costa, Valeri, Belluschi, Farías e Prediger. Parece que, desta leva, o único que afinal valia alguma coisa é o único que Jesualdo dispensou: Bolatti, agora titular na Fiorentina e na selecção argentina. Convenhamos que o professor tem um critério singular.

Eu percebo que Jesualdo tivesse de fazer poupanças contra o Olhanense, a pensar no Arsenal. Não percebo é a lógica de poupar antes de fazer o resultado, arriscando-se depois a ficar sem resultado e sem poupança: não era melhor ter metido o Varela desde início e tê-lo tirado depois de estar a ganhar 2-0, do que tê-lo poupado de início para ter de o meter a seguir a estar a perder 0-2? Era: o problema é que, apesar de tantas e tantas demonstrações da sua absoluta ineficácia, Jesualdo continua a manter a fé naquele patético quinteto latino-americano que habita no meio campo e arredores. E, mesmo depois da oportunidade de os experimentar bem naquela série de quatro ou cinco jogos contra equipas de terceira linha, em Janeiro, depois de ter ficado exposto à saciedade que dali não viria nenhuma boa nova, o professor teima em acreditar em milagres e em imaginar que pode disputar a sério o campeonato e a Europa com os Guaríns e Marianos.

Uma equipa de top em Portugal, que aspire também a fazer figura na Europa, precisa de ter, pelo menos, onze bons jogadores e sete razoáveis. Este FC Porto tem oito bons e três razoáveis: é curto. É certo que ninguém pode saber se a responsabilidade principal pelo plantel que está à vista é de Jesualdo Ferreira ou de Adelino Caldeira. Mas os dispensados são responsabilidade do treinador; a opção em não apostar nos que vêm da formação é responsabilidade sua; a teimosia nas mesmos alternativas com os suplentes de sempre, e que nunca resultam, é responsabilidade sua; a incapacidade de mudar as coisas a partir do banco, de não fazer substituições apenas por fazer e de não ser capaz de as fazer antes e não depois de estar em estado de necessidade, é responsabilidade sua.

Logo à noite, contra o Arsenal, a equipa só pode ser esta: Helton (já que tem de ser...), Fucile, Rolando, Bruno Alves e Álvaro Pereira; Raul Meireles, Fernando e Ruben Micael; Hulk, Falcao e Varela. No banco, professor, por favor sente: Beto, Miguel Lopes, Nuno André Coelho, Sérgio Oliveira e Cristian Rodriguéz. E, se quiser fazer número, acrescente o Belluschi — que, à falta de alternativa, entrará para o lugar de Fernando, se este não estiver em condições, recuando o Raul para trinco. E ganhe a eliminatória hoje, salve a época e para o ano reveja com atenção esse problema do meio campo e da falta de mais um extremo de raiz. E peça ao Dr. Caldeira que vá de férias para bem longe, quando chegar a altura das contratações.

PS 1 — Até que enfim que a Selecção Nacional tem um equipamento que dá gosto ver! As cores da bandeira (uma das mais feias do mundo, tal como o hino) não ajudam, mas décadas de ditadura do encarnado tornaram o equipamento horrível. Agora, que o Glorioso Benfica não tem um único jogador na Selecção (embora o Quim lá merecesse estar e a titular), já era altura de parar com a vassalagem nos equipamentos. Oxalá este nos dê sorte!

PS 2 — Ó Araújo Pereira, venho constatando a atenção que você dedica aos meus escritos passados — embora não todos, mas incluindo alguns de que eu próprio já não me lembrava. E ocorreu-me se você, entre dois daqueles tão imaginativos anúncios ao MEO, não quereria fazer uma perninha como meu arquivista, que bem precisava? (E só não o trato por Ricardo também, porque você me trata por Sousa Tavares, e só há duas coisas que eu odeio, quando se referem a mim: que me tirem o Miguel do nome e que me ponham a dizer uma palavra que eu nunca uso: «algo»).

Miguel Sousa Tavares n' A Bola.

domingo, 7 de março de 2010

Dia do STEWARD

http://bibo-porto-carago.blogspot.com/

No próximo dia 10 de Março, pelas 21 horas, todos ao DRAGÃO CAIXA para assistir ao FCPorto – SLBenfica, em hóquei em patins, vestindo um colete verde reflector (de preferência), sob o lema:

"Um STEWARD em cada um de nós"

em protesto pela forma vergonhosa como o FC Porto foi castigado em favor do clube dos 6 milhões (da treta)!!!!

Junta-te a nós, e passa a palavra... vamos mostrar, mais uma vez, pública, cívica e ordeiramente, toda a força das gentes 'anónimas' do melhor clube Português, o (nosso) FC Porto.

ps - esta, será a primeira de muitas outras até ao final da actual época desportiva... ficarão a restar idênticas iniciativas aquando dos mesmos confrontos no andebol, basquetebol e futebol.